Desconheço o evangelho em que vá
escrito que um macaco deve comiseração a outro macaco, ou que deve uma galinha
simpatizar com a sorte de outra galinha antes de simpatizar com a de um pato.
Para todos os efeitos, quem quer que não conheça o rapazito africano que
ilustra de tempos a tempos a fome daquele continente não sente por ele, ainda
que lhe digam que sim, nada que não possa sentir por uma cana de pesca. Por
outras palavras, ser humanitário é estar enganado. A diferença entre um
rapazito a quem a subnutrição concedeu honras de capa de revista e um pinguim a
levar pauladas em nome da ciência é que o primeiro perde mais tempo a sacudir
moscas do que o segundo - e talvez o facto de o rapazito, apesar de tão
barrigudo quanto o pinguim, ter menos sardinhas no bucho. Vem isto a propósito,
perguntará o leitor a quem o pasmo ainda governa, da morte do Borges, no ano
que agora findou, e da discussão em torno de como se deve reagir à morte de
alguém que não se conhece e sobre quem haja a opinião de que fica melhor
estendido do que de pé. Como se perceberá pelo que vai dito acima, tirando a
família e os amigos, não creio que seja passível de acusação quem quer que não
lhe tenha lamentado a morte. Merece mais a nossa comiseração aquilo que nos
rodeia do que um irmão que nunca conhecemos.







