Mostrar mensagens com a etiqueta Gonçalo M. Tavares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gonçalo M. Tavares. Mostrar todas as mensagens

18/12/2014

Ad Hominem (2) - Gonçalidades


GONÇALIDADES

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar as vozes mais banais.
Incrível! Já rasguei ao todo três jornais
Enfurecidamente.

Dói-me a cabeça. Arranco dela alguns cabelos:
Que bem se diz do mau professor de ginástica!
Aclamam-lhe os enredos e a dicção fantástica.
Quanto a enganos, nem vê-los!

Sentei-me à secretária… Ali defronte engoma
A camisa ao marido, não deixando um vinco,
Uma esposa esmerada já com netos cinco.
Tem hoje um hematoma…

21/05/2014

Sed Contra - Tavares ainda não perdeu o emprego


Quem quer que abra, por vontade própria ou decreto providencial, um livro de Gonçalo M. Tavares, dá com a vista naquilo a que, literariamente falando, se chama uma surpresa. Sossegue quem tiver aprendido a pensar, pois ainda não disse se é boa ou má a surpresa com que dá quem assim opera. Nem o poderia talvez dizer, pois que, de um certo ponto de vista, pode ser bem surpreendido aquele que der com o espanto em má surpresa. Ora, quem quer que abra, pondo o intuito em ler, um dos livros por que Gonçalo M. Tavares foi surpreendendo o exigentíssimo público pátrio, Matteo perdeu o Emprego, tem forçosamente de abri-lo, como abriria qualquer outro livro, na primeira página. Se tiver a gentileza de fazê-lo, pode não reparar em muita coisa, mas decerto repara nas letras que lá se timbraram. Pode, por isso, não depositar suspeitas na hipótese de o escritor, desconhecendo as ínclitas leis da profissão de escrever livrinhos, não saber que um parágrafo pode conter mais do que um período, como o faz quem sabe o que há a ser feito, mas é com certeza capaz de ler, porque está lá para ser lido por quem tiver olhos e educação primária, o seguinte parágrafo:

Todas as manhãs, um homem era visto, entre as sete e as sete e meia, a contornar a rotunda principal da cidade, rotunda onde desembocava sessenta por cento do tráfego. Às sete da manhã o fumo dos automóveis era maior que ao fim da tarde, porém, mesmo assim, havia fumo, metal e ainda a velocidade de alguns automóveis. E ali, no meio, correndo risco de vida, um homem. Aaronson.