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17/08/2015

Sed Contra - A Criança Tolinha (3)


Tendo ficado demonstrado, nos dois textos de que este é conclusão, que Herberto Helder está para a poesia como um marinheiro a quem não explicaram o que é marinhar está para a marinhagem e como um adolescente a quem não explicaram o que é adolescer está para a adolescência, falta agora tornar claro de que modo esta criança tolinha, não obstante nunca ter aprendido a marinhar nem ter realmente adolescido, deu em ser marinheiro e adulto respeitado. Por outras palavras, falta explicar por que motivos não é crueldade nem deselegância achar, como o achará quem souber o que é justo achar, que nem o facto de Herberto Helder ter nascido na Madeira lhe desculpa a dicção entaramelada. É hora, por isso, de olhar com atenção, de preferência sem o coração amargurado nem a alma condoída com que olham todos os que se emocionam ao olhar, para o poema central do seu primeiro volume de poemas e, possivelmente, da sua obra completa.

29/06/2015

Sed Contra - A Criança Tolinha (2)




II – A CRIANÇA TOLINHA E A PUBERDADE

Diz-se algures, numa parte do mundo que só importaria saber qual era se alguma coisa importasse, que uma criança tolinha só dá em poeta se ao gugu dadá com que escreve o primeiro poema lhe responder quem lho ler com o gugu dadá de volta que o incentiva a escrever o segundo. Quando a criança tolinha que Herberto Helder é – e que o seja foi retrato que os pincéis do raciocínio deixaram pintado no primeiro texto – escreveu o seu primeiro poema, qualquer criança tolinha lhe terá dito, portanto, que continuasse a ser criança e a ser tolinho. Assim encorajado, deu pois em continuar. O segundo, o terceiro e o quarto poema devem ter excitado tanto as partes às crianças tolinhas a quem os deu a ler como o primeiro, pois não tardou que fosse aclamado por uma multidão delas. E em pouco tempo, por qualquer razão que estará escrita onde estiver escrito o mistério de tudo, tínhamos uma criança tolinha laureada e um meio literário de crianças tolinhas aos berros, pedindo mais poemas com que, humedecendo-as, pudessem dar lubrificação à berraria por que mantêm a fama.

11/06/2015

Sed Contra - A Criança Tolinha (1)





 Quando um poeta falece, os poetas que ainda não faleceram têm por hábito elogiar muito a poesia do falecido. O mesmo não acontece com a classe dos padeiros ou, para não se dizer que comparo injustamente, com a classe dos larápios. Tal como seria bizarro que um padeiro que ainda não faleceu elogiasse as carcaças de um padeiro acabado de falecer, é pouco provável que haja larápio que, presente nas cerimónias fúnebres do larápio falecido, se lembre de elogiá-lo antes de se lembrar de lhe larapiar o que quer que lhe tenham posto nas algibeiras do fato com que vai para a cova. O fenómeno é certamente explicável, mas seria decepcionante se, votando-me agora às manhas da sociologia para demonstrar que faz parte da vocação de poeta elogiar outros poetas, deixasse de lado o caso particular do poeta que deveras faleceu há dias e cuja poesia foi elogiada por todos ou quase todos os poetas que, por razões que cabe aos deuses explicar, ainda não faleceram. Que a poesia de Herberto Helder não merece os elogios que recebeu, e que os poetas que o elogiam não merecem, portanto, senão a consolação de ainda não terem falecido como ele, eis o que a análise tratará de mostrar de seguida. Correndo o risco de estragar a surpresa que o título, tendencioso como qualquer título, talvez tenha estragado antecipadamente, nenhuns desses elogios são merecidos porque, apesar de o considerarem poeta, melhor o consideraria quem o considerasse uma criança tolinha. Para não maçar excessivamente quem leia, e porque revela o que há a revelar de uma criança tolinha que acabou laureada a demonstração das tolices de criança por que se destaca, das tolices púberes que lhe formaram o carácter e das tolices adultas com que se explica o resto da sua existência, divido a análise em três textos, cada um demonstrativo de cada um destes três géneros de tolice. Importa ainda avisar, não vá alguém queixar-se de ter sido enganado ao descer do pano do que ficar dito, que, sempre que chamar o poeta falecido ao palco para mostrar o que sabe fazer, assim iluminando o que afirmo através da ribalta da citação, me reportarei sobretudo à sua poesia inicial. Para o efeito, ela me chega. Quem achar, porém, que a parte da obra assim aclarada não representa o todo da obra do poeta, achando em propô-lo a má vontade ou a vilania de quem o propõe, não deve esquecer-se de que aquele que, por deformidade original, dá em nascer coxo a vida inteira passa a coxear. Em vez de tentar provar-se atleta, melhor faria tal coxo, de resto, se respeitasse o exemplo dado por quem assim nasceu e pusesse o empenho em “provar-se vilão”. Mereceria com certeza outras palmas.