Depois do choque dos atentados
terroristas contra as satirazinhas do jornal francês, de cuja condenação poucos
se excluíram, o mundo começou, pouco a pouco, a regressar à normalidade. Sem
grande espanto, boa parte dos Carlinhos que, a quente, repudiaram sem rodeios o
acontecimento, passaram a justificar a infâmia através da insensatez ou das
injúrias a que os desenhadores amiúde se entregavam. Mesmo que não tenham
desculpado os assassinos, desculparam-lhes certamente a irritação. Na cabeça de
quem pensa assim - caríssimo leitor – a acção de espingardar contra os outros é
inaceitável, mas o estado de espírito que antecipa e leva a pegar em espingardas
é compreensível e justo. A fronteira entre o perdoável e o imperdoável, para a
maioria dos homenzinhos e das mulherzinhas que sobre isto tiveram a
oportunidade de dizer alguma coisa, está naquilo que distingue o fazer do
pensar fazê-lo; o que não admite perdão, portanto, não são os crimes
propriamente ditos, mas a incapacidade de açaimar o ódio despertado pelas
provocações alheias.
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25/02/2015
07/10/2014
In Hoc Tempore - Banhos Públicos e Marionetas Molhadas
Troveja lá fora. Que acuda Santa Bárbara a quem
tiver de acudir. Por mim, ouço bater o granizo nos parapeitos e comovo-me. As
bátegas na rua e o rachar de lenha com que os céus se fendem são canções que
embalam quem não formou os medos pelas companhias. Fique o caríssimo leitor a
saber que há pouca coisa de que goste mais do que de uma tempestade medonha. As
pessoas temem os deuses, ou os barulhos que atribuem aos deuses, só porque
cresceram a ver pessoas mais velhas a temer deuses e barulhos. Se tivessem
crescido sem ervas daninhas à volta, dentro de um poço, por exemplo, ou se
tivessem crescido a desaprender o que iam aprendendo, que é como cresce quem
sabe crescer, tinham tanto medo de trovões como de uma borboleta que lhes
pousasse num dedo.
10/08/2014
In Hoc Tempore - O Trambolhão
Contou-me há dias um primo que não prezo,
mas que me escreve todos os anos, tão-só pelo hábito de fazê-lo, a desejar um
feliz aniversário e que conte muitos mais – coisas que as pessoas aprendem a
dizer pela vizinhança de umas com as outras – que sofrera naquela semana, por
uma coisa que lhe acontecera num transporte público, um abalo muito grande. O
episódio, a que deu andrajos de desgraça, causou em mim, no entanto, um abalo
de tipo bastante diferente. Se lhe respondesse à carta em que mo contou, coisa que
não farei por estimar mais os meus papéis do que a tagarelice com os outros,
dir-lhe-ia que a história que me relatou não suscitou em mim o terror e a
piedade a que o seu espírito foi levado, ao assistir ao que se passou, mas a
gargalhada mais despudorada a que pode alguém dar garganta. Como é possível –
perguntará o leitor perplexo – que um mesmo acontecimento produza tão
dissemelhantes reacções? Como é possível que uma pessoa calce os coturnos a uma
história que, segundo a opinião de outra pessoa, só tem pés para calçar socos?
24/02/2014
In Hoc Tempore - Columbofobia
Não obstante os tempos de crise, já deve o
caríssimo leitor ter reparado que tem proliferado, nos últimos meses, a
nobilíssima profissão dos músicos ambulantes. Estes indivíduos, que antes de
serem músicos eram coitados, e que antes de serem coitados devem ter sido
aprendizes de coitado, não nasceram certamente a saber do ofício musicado.
Primeiro – creia o leitor – tiveram com certeza de notar que em maltrapilhos
sentados em vão de escada, berma suja ou rua por onde passa quem anda nem quem
por acidente neles tropeça neles repara. De seguida, tiveram de aprender
também, ainda preguiçando na posição sentada, que gemer quando alguém aparece
mais afugenta que atrai. Da descoberta de que sem esforço não há recompensa
passaram decerto a descobrir que dobrar-se na direcção de quem vem a chegar, de
preferência ralhando qualquer coisa ao mesmo tempo, obriga o transeunte
apressado a assustar-se.
04/01/2014
In Hoc Tempore - A Morte do Borges
Desconheço o evangelho em que vá
escrito que um macaco deve comiseração a outro macaco, ou que deve uma galinha
simpatizar com a sorte de outra galinha antes de simpatizar com a de um pato.
Para todos os efeitos, quem quer que não conheça o rapazito africano que
ilustra de tempos a tempos a fome daquele continente não sente por ele, ainda
que lhe digam que sim, nada que não possa sentir por uma cana de pesca. Por
outras palavras, ser humanitário é estar enganado. A diferença entre um
rapazito a quem a subnutrição concedeu honras de capa de revista e um pinguim a
levar pauladas em nome da ciência é que o primeiro perde mais tempo a sacudir
moscas do que o segundo - e talvez o facto de o rapazito, apesar de tão
barrigudo quanto o pinguim, ter menos sardinhas no bucho. Vem isto a propósito,
perguntará o leitor a quem o pasmo ainda governa, da morte do Borges, no ano
que agora findou, e da discussão em torno de como se deve reagir à morte de
alguém que não se conhece e sobre quem haja a opinião de que fica melhor
estendido do que de pé. Como se perceberá pelo que vai dito acima, tirando a
família e os amigos, não creio que seja passível de acusação quem quer que não
lhe tenha lamentado a morte. Merece mais a nossa comiseração aquilo que nos
rodeia do que um irmão que nunca conhecemos.
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