Carlos da
Gentileza Mendes é, dos cinco, o único fumador. Pode parecer irrelevante que o
seja, mas não é. Fumar é uma forma de estar sozinho consigo mesmo, mas estando
distraído de si. É uma actividade, portanto, mais ou menos análoga à actividade
de imaginar, salvo a subtil mas importantíssima diferença de não se estar
atento à solidão. Quem fuma deposita parte do pensamento nas baforadas com que
se sacia e nos rodopios que o fumo faz pelo ar; pode até esforçar-se por pensar
muito profundamente na pessoa que é, mas todos os pensamentos são regulados
pela actividade externa de engolir e expelir fumo durante uns minutos. Quem
imagina, por outro lado, tem como única distracção aquilo que encontra dentro
da caverna para onde orienta o pensamento; nada há de externo que o desvie do
seu abismo interior.
Mostrar mensagens com a etiqueta Qui Sumus. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Qui Sumus. Mostrar todas as mensagens
07/07/2014
09/04/2014
Qui Sumus (3)
Julião
Maltratado foi, segundo afirma quem dele sabe mais do que uma ou duas coisas,
professor de tempos livres. Foi no exercício dessa ocupação, mais ensinando a
si do que àqueles a quem ensinava, que começou a desenvolver o apetite por duas
das suas diversões favoritas: ser incoerente e não ter vergonha. O despudor, de
resto, é vocação com a qual, tudo indica, já terá nascido, o que lhe valeu,
logo na altura de frequentar as aulas de filosofia no liceu, a generosa
comparação com Diógenes, o Cínico. Embora nunca tenha tido por quarto a cúpula
avinagrada de um barril e não se conheça imperador que por ele se tenha deixado
impressionar, é justa a comparação – abismado leitor – nem que seja por lhe ser
muitíssimo querida a amizade com canídeos. Do folclore a que se presta o seu
comportamento público é escusado falar, pois a alcunha não poderia ser, a esse
respeito, mais certeira. Por tudo isto, seria compreensível que se
conjecturasse acerca da educação que lhe deram os pais, se a deram, e acerca de
como em pequeno o importunavam os amiguinhos mais espertalhões. Garante,
contudo, quem o conheceu na mocidade que o apelido é mais coincidência do que
antonomásia.
03/02/2014
Qui Sumus (2)
Quererá decerto
saber a contemporaneidade que, involuntariamente passando, der com a vista nas
palavras destes cinco homens incomuns, quem são, o que faziam antes de fazerem
o que aqui fazem, e aquilo que, aleitando a curiosidade futura, podem deles
esperar daqui para a frente. A primeira coisa que deve o leitor ficar a saber é
que, se falar posso em nome de cada um, são todos eles muito distintos uns dos
outros. Pelo absurdo que seria explicar com duas ou três frases aquilo por que
se distinguem, contente-se quem puser leitura nestas linhas em acreditar no que
lhe digo. São diferentes uns dos outros, e a seu tempo se perceberá como. Por
agora, será útil ao mesmo tempo que é amável dar a quem lê as curtíssimas notas
biográficas com que lhes foi pedido que apresentassem a pessoa que são, o que
têm por costume fazer e em que moldes será o contributo que aqui pretendem
regularmente deixar. Escolhido que fui para as reunir e fazer circular, não
passaram por mim essas notas biográficas sem que lhes desse um cunho que não
tinham. Fique, portanto, o leitor desde já avisado de que, se eu disser que
fulano é isto e aquilo e, se por infelicidade se vier a comprovar que não é, é
a mim e só a mim que deverá vir pedir contas. Para ser honesto, confesso que não
fiz muito caso daquilo que quis cada um dos colaboradores do Sed Contra divulgar a respeito próprio,
e que preferi dizer deles o pouco a que, pelo acidente de os conhecer – a uns
melhor do que a outros, é certo –, posso dar apontamento. Começo, como
começaria quem quer que se soubesse exemplo a seguir, por aquilo que há a
referir acerca de quem sou, deixando para ocasiões vindouras o que de mais
interessante houver a dizer dos colegas com quem divido a honra de aqui poder largar,
com a frequência possível, a açucarada seiva de ser alguém.
29/12/2013
Qui Sumus (1)
Conheci
o Álvaro da Horta, leitor curiosíssimo, numa festa cujas incidências mereciam
sem dúvida um livro dado à estampa. Acontecia que, esperando por dar ganso ou lampreia
à barriga, dei por mim entediado a escutar o professor Benguela Fazendeiro.
Entre a linguística dura que o homem arrotava e um ou outro arroto por conter,
de que de imediato, mostrando maneiras, se desculpava, não imagina quem me leia
o interesse com que lhe seguia as frases a dezena de pasmados que ali tinha
sido trazida não pelo cheiro a couves da eructação mas pela mercê inesperada de
privar com o intelectual. Como estava ali menos pela prelecção e mais pelos
rissóis que não chegavam, dei paciência ao apetite e fui ouvir o silêncio do
outro lado da sala. Contou-me o Álvaro mais tarde que, no preciso instante em
que eu me aproximava, bocejando, do pequeno grupo para o qual ele fora
arrastado só pela cortesia de ali estar, alguém dizia, julgando citar o Antero,
que depois da morte há escuridão e silêncio – e nada mais. Espreitando pela
fechadura das memórias que guardo dessa noite, não me recordo – juro pelo Cão –
que se tenha realmente debatido tão grave assunto. O Álvaro, como é seu hábito,
não se metia em nada que não fosse matéria de letras, mas garante que dois
fariseus, se não mesmo três, por pouco não andavam à pancada para ver quem
tinha razão a respeito da metafísica. Verdade ou não, não posso negar que as
primeiras palavras que ouvi o Álvaro dizer, em jeito de chalaça e
despertando-me de dentro de mim, foram as seguintes: “vina dabant animos”.
Subscrever:
Mensagens (Atom)







