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07/07/2014

Qui Sumus (4)


Carlos da Gentileza Mendes é, dos cinco, o único fumador. Pode parecer irrelevante que o seja, mas não é. Fumar é uma forma de estar sozinho consigo mesmo, mas estando distraído de si. É uma actividade, portanto, mais ou menos análoga à actividade de imaginar, salvo a subtil mas importantíssima diferença de não se estar atento à solidão. Quem fuma deposita parte do pensamento nas baforadas com que se sacia e nos rodopios que o fumo faz pelo ar; pode até esforçar-se por pensar muito profundamente na pessoa que é, mas todos os pensamentos são regulados pela actividade externa de engolir e expelir fumo durante uns minutos. Quem imagina, por outro lado, tem como única distracção aquilo que encontra dentro da caverna para onde orienta o pensamento; nada há de externo que o desvie do seu abismo interior.

09/04/2014

Qui Sumus (3)


Julião Maltratado foi, segundo afirma quem dele sabe mais do que uma ou duas coisas, professor de tempos livres. Foi no exercício dessa ocupação, mais ensinando a si do que àqueles a quem ensinava, que começou a desenvolver o apetite por duas das suas diversões favoritas: ser incoerente e não ter vergonha. O despudor, de resto, é vocação com a qual, tudo indica, já terá nascido, o que lhe valeu, logo na altura de frequentar as aulas de filosofia no liceu, a generosa comparação com Diógenes, o Cínico. Embora nunca tenha tido por quarto a cúpula avinagrada de um barril e não se conheça imperador que por ele se tenha deixado impressionar, é justa a comparação – abismado leitor – nem que seja por lhe ser muitíssimo querida a amizade com canídeos. Do folclore a que se presta o seu comportamento público é escusado falar, pois a alcunha não poderia ser, a esse respeito, mais certeira. Por tudo isto, seria compreensível que se conjecturasse acerca da educação que lhe deram os pais, se a deram, e acerca de como em pequeno o importunavam os amiguinhos mais espertalhões. Garante, contudo, quem o conheceu na mocidade que o apelido é mais coincidência do que antonomásia.

03/02/2014

Qui Sumus (2)



Quererá decerto saber a contemporaneidade que, involuntariamente passando, der com a vista nas palavras destes cinco homens incomuns, quem são, o que faziam antes de fazerem o que aqui fazem, e aquilo que, aleitando a curiosidade futura, podem deles esperar daqui para a frente. A primeira coisa que deve o leitor ficar a saber é que, se falar posso em nome de cada um, são todos eles muito distintos uns dos outros. Pelo absurdo que seria explicar com duas ou três frases aquilo por que se distinguem, contente-se quem puser leitura nestas linhas em acreditar no que lhe digo. São diferentes uns dos outros, e a seu tempo se perceberá como. Por agora, será útil ao mesmo tempo que é amável dar a quem lê as curtíssimas notas biográficas com que lhes foi pedido que apresentassem a pessoa que são, o que têm por costume fazer e em que moldes será o contributo que aqui pretendem regularmente deixar. Escolhido que fui para as reunir e fazer circular, não passaram por mim essas notas biográficas sem que lhes desse um cunho que não tinham. Fique, portanto, o leitor desde já avisado de que, se eu disser que fulano é isto e aquilo e, se por infelicidade se vier a comprovar que não é, é a mim e só a mim que deverá vir pedir contas. Para ser honesto, confesso que não fiz muito caso daquilo que quis cada um dos colaboradores do Sed Contra divulgar a respeito próprio, e que preferi dizer deles o pouco a que, pelo acidente de os conhecer – a uns melhor do que a outros, é certo –, posso dar apontamento. Começo, como começaria quem quer que se soubesse exemplo a seguir, por aquilo que há a referir acerca de quem sou, deixando para ocasiões vindouras o que de mais interessante houver a dizer dos colegas com quem divido a honra de aqui poder largar, com a frequência possível, a açucarada seiva de ser alguém.

29/12/2013

Qui Sumus (1)



Conheci o Álvaro da Horta, leitor curiosíssimo, numa festa cujas incidências mereciam sem dúvida um livro dado à estampa. Acontecia que, esperando por dar ganso ou lampreia à barriga, dei por mim entediado a escutar o professor Benguela Fazendeiro. Entre a linguística dura que o homem arrotava e um ou outro arroto por conter, de que de imediato, mostrando maneiras, se desculpava, não imagina quem me leia o interesse com que lhe seguia as frases a dezena de pasmados que ali tinha sido trazida não pelo cheiro a couves da eructação mas pela mercê inesperada de privar com o intelectual. Como estava ali menos pela prelecção e mais pelos rissóis que não chegavam, dei paciência ao apetite e fui ouvir o silêncio do outro lado da sala. Contou-me o Álvaro mais tarde que, no preciso instante em que eu me aproximava, bocejando, do pequeno grupo para o qual ele fora arrastado só pela cortesia de ali estar, alguém dizia, julgando citar o Antero, que depois da morte há escuridão e silêncio – e nada mais. Espreitando pela fechadura das memórias que guardo dessa noite, não me recordo – juro pelo Cão – que se tenha realmente debatido tão grave assunto. O Álvaro, como é seu hábito, não se metia em nada que não fosse matéria de letras, mas garante que dois fariseus, se não mesmo três, por pouco não andavam à pancada para ver quem tinha razão a respeito da metafísica. Verdade ou não, não posso negar que as primeiras palavras que ouvi o Álvaro dizer, em jeito de chalaça e despertando-me de dentro de mim, foram as seguintes: “vina dabant animos”.