Desconheço o evangelho em que vá
escrito que um macaco deve comiseração a outro macaco, ou que deve uma galinha
simpatizar com a sorte de outra galinha antes de simpatizar com a de um pato.
Para todos os efeitos, quem quer que não conheça o rapazito africano que
ilustra de tempos a tempos a fome daquele continente não sente por ele, ainda
que lhe digam que sim, nada que não possa sentir por uma cana de pesca. Por
outras palavras, ser humanitário é estar enganado. A diferença entre um
rapazito a quem a subnutrição concedeu honras de capa de revista e um pinguim a
levar pauladas em nome da ciência é que o primeiro perde mais tempo a sacudir
moscas do que o segundo - e talvez o facto de o rapazito, apesar de tão
barrigudo quanto o pinguim, ter menos sardinhas no bucho. Vem isto a propósito,
perguntará o leitor a quem o pasmo ainda governa, da morte do Borges, no ano
que agora findou, e da discussão em torno de como se deve reagir à morte de
alguém que não se conhece e sobre quem haja a opinião de que fica melhor
estendido do que de pé. Como se perceberá pelo que vai dito acima, tirando a
família e os amigos, não creio que seja passível de acusação quem quer que não
lhe tenha lamentado a morte. Merece mais a nossa comiseração aquilo que nos
rodeia do que um irmão que nunca conhecemos.
04/01/2014
02/01/2014
Res Scriptae - O emissário que pintava o cabelo
Um
velho e vaidoso emissário de Keos foi a Esparta com o cabelo pintado,
envergonhado por parecer envelhecido. Uma vez apresentado à assembleia,
transmitiu a sua mensagem. Nesse momento, Archidamus, o rei espartano,
levantou-se e disse: “Que integridade pode haver nas palavras de um homem que
anda por aí com uma mentira na cabeça, assim como no seu coração?
tirado de: Greek Wit: a Collection of Smart Sayings and
Anedoctes translated from Greek Prose Writers
Moral
da História: Não se deve confiar em homens que pintam o cabelo.
29/12/2013
Qui Sumus (1)
Conheci
o Álvaro da Horta, leitor curiosíssimo, numa festa cujas incidências mereciam
sem dúvida um livro dado à estampa. Acontecia que, esperando por dar ganso ou lampreia
à barriga, dei por mim entediado a escutar o professor Benguela Fazendeiro.
Entre a linguística dura que o homem arrotava e um ou outro arroto por conter,
de que de imediato, mostrando maneiras, se desculpava, não imagina quem me leia
o interesse com que lhe seguia as frases a dezena de pasmados que ali tinha
sido trazida não pelo cheiro a couves da eructação mas pela mercê inesperada de
privar com o intelectual. Como estava ali menos pela prelecção e mais pelos
rissóis que não chegavam, dei paciência ao apetite e fui ouvir o silêncio do
outro lado da sala. Contou-me o Álvaro mais tarde que, no preciso instante em
que eu me aproximava, bocejando, do pequeno grupo para o qual ele fora
arrastado só pela cortesia de ali estar, alguém dizia, julgando citar o Antero,
que depois da morte há escuridão e silêncio – e nada mais. Espreitando pela
fechadura das memórias que guardo dessa noite, não me recordo – juro pelo Cão –
que se tenha realmente debatido tão grave assunto. O Álvaro, como é seu hábito,
não se metia em nada que não fosse matéria de letras, mas garante que dois
fariseus, se não mesmo três, por pouco não andavam à pancada para ver quem
tinha razão a respeito da metafísica. Verdade ou não, não posso negar que as
primeiras palavras que ouvi o Álvaro dizer, em jeito de chalaça e
despertando-me de dentro de mim, foram as seguintes: “vina dabant animos”.
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