04/01/2014

In Hoc Tempore - A Morte do Borges



Desconheço o evangelho em que vá escrito que um macaco deve comiseração a outro macaco, ou que deve uma galinha simpatizar com a sorte de outra galinha antes de simpatizar com a de um pato. Para todos os efeitos, quem quer que não conheça o rapazito africano que ilustra de tempos a tempos a fome daquele continente não sente por ele, ainda que lhe digam que sim, nada que não possa sentir por uma cana de pesca. Por outras palavras, ser humanitário é estar enganado. A diferença entre um rapazito a quem a subnutrição concedeu honras de capa de revista e um pinguim a levar pauladas em nome da ciência é que o primeiro perde mais tempo a sacudir moscas do que o segundo - e talvez o facto de o rapazito, apesar de tão barrigudo quanto o pinguim, ter menos sardinhas no bucho. Vem isto a propósito, perguntará o leitor a quem o pasmo ainda governa, da morte do Borges, no ano que agora findou, e da discussão em torno de como se deve reagir à morte de alguém que não se conhece e sobre quem haja a opinião de que fica melhor estendido do que de pé. Como se perceberá pelo que vai dito acima, tirando a família e os amigos, não creio que seja passível de acusação quem quer que não lhe tenha lamentado a morte. Merece mais a nossa comiseração aquilo que nos rodeia do que um irmão que nunca conhecemos.

02/01/2014

Res Scriptae - O emissário que pintava o cabelo


Um velho e vaidoso emissário de Keos foi a Esparta com o cabelo pintado, envergonhado por parecer envelhecido. Uma vez apresentado à assembleia, transmitiu a sua mensagem. Nesse momento, Archidamus, o rei espartano, levantou-se e disse: “Que integridade pode haver nas palavras de um homem que anda por aí com uma mentira na cabeça, assim como no seu coração?

tirado de: Greek Wit: a Collection of Smart Sayings and Anedoctes translated from Greek Prose Writers



Moral da História: Não se deve confiar em homens que pintam o cabelo.

 

29/12/2013

Qui Sumus (1)



Conheci o Álvaro da Horta, leitor curiosíssimo, numa festa cujas incidências mereciam sem dúvida um livro dado à estampa. Acontecia que, esperando por dar ganso ou lampreia à barriga, dei por mim entediado a escutar o professor Benguela Fazendeiro. Entre a linguística dura que o homem arrotava e um ou outro arroto por conter, de que de imediato, mostrando maneiras, se desculpava, não imagina quem me leia o interesse com que lhe seguia as frases a dezena de pasmados que ali tinha sido trazida não pelo cheiro a couves da eructação mas pela mercê inesperada de privar com o intelectual. Como estava ali menos pela prelecção e mais pelos rissóis que não chegavam, dei paciência ao apetite e fui ouvir o silêncio do outro lado da sala. Contou-me o Álvaro mais tarde que, no preciso instante em que eu me aproximava, bocejando, do pequeno grupo para o qual ele fora arrastado só pela cortesia de ali estar, alguém dizia, julgando citar o Antero, que depois da morte há escuridão e silêncio – e nada mais. Espreitando pela fechadura das memórias que guardo dessa noite, não me recordo – juro pelo Cão – que se tenha realmente debatido tão grave assunto. O Álvaro, como é seu hábito, não se metia em nada que não fosse matéria de letras, mas garante que dois fariseus, se não mesmo três, por pouco não andavam à pancada para ver quem tinha razão a respeito da metafísica. Verdade ou não, não posso negar que as primeiras palavras que ouvi o Álvaro dizer, em jeito de chalaça e despertando-me de dentro de mim, foram as seguintes: “vina dabant animos”.