22/08/2014

Ave Atque Vale (4) - Robespierre



“Vi o passado; e prevejo o futuro… A morte é o princípio da Imortalidade!”

(do último discurso público de Robespierre, a 26 de Julho de 1794, dois dias antes de ser executado)

tirado de: Immortal Last Words: History’s Most Memorable Dying Remarks, Deathbed Declarations and Final Farewells

17/08/2014

Res Scriptae - O Encontro


O conde de Southampton foi a uma livraria e perguntou ao livreiro pel’A Anatomia da Melancolia de Robert Burton. O senhor Burton, por acaso, estava naquela altura sentado a um canto da livraria, e o livreiro disse ao conde: ‘Meu amo, se quiser posso mostrar-lhe o autor’. E fê-lo. ‘Senhor Burton’, disse o conde, ‘ao seu dispor’. ‘Senhor de Southampton’, disse o senhor Burton, ‘ao seu dispor’. E foi-se embora.

tirado de: The New Oxford Book of Literary Anedoctes

10/08/2014

In Hoc Tempore - O Trambolhão


Contou-me há dias um primo que não prezo, mas que me escreve todos os anos, tão-só pelo hábito de fazê-lo, a desejar um feliz aniversário e que conte muitos mais – coisas que as pessoas aprendem a dizer pela vizinhança de umas com as outras – que sofrera naquela semana, por uma coisa que lhe acontecera num transporte público, um abalo muito grande. O episódio, a que deu andrajos de desgraça, causou em mim, no entanto, um abalo de tipo bastante diferente. Se lhe respondesse à carta em que mo contou, coisa que não farei por estimar mais os meus papéis do que a tagarelice com os outros, dir-lhe-ia que a história que me relatou não suscitou em mim o terror e a piedade a que o seu espírito foi levado, ao assistir ao que se passou, mas a gargalhada mais despudorada a que pode alguém dar garganta. Como é possível – perguntará o leitor perplexo – que um mesmo acontecimento produza tão dissemelhantes reacções? Como é possível que uma pessoa calce os coturnos a uma história que, segundo a opinião de outra pessoa, só tem pés para calçar socos?

31/07/2014

Ipsis Verbis (8)


O assassínio por sentença é incomensuravelmente mais terrível do que o assassínio cometido por um bandido. Aquele a quem os bandidos matam, a quem esfaqueiam à noite, na floresta ou noutro lugar qualquer, de certeza que tem a esperança, até ao último instante, de se salvar. Houve mesmo casos em que, já com o pescoço golpeado, ainda tinha esperança, ou corria, ou implorava. Mas ali privam o homem dessa última esperança, com que é dez vezes mais fácil morrer, cortam-na definitivamente; é a sentença, e todo o horrível tormento consiste em que é de certeza inevitável, e não existe nada pior do que tal tormento. Pegue num soldado e vá pô-lo em frente do canhão no campo de batalha e dispare contra ele: o soldado terá esperança até ao último instante; mas leia a esse mesmo soldado uma sentença definitiva, e ele enlouquece ou chora.

Fiódor Dostoiévski, O Idiota
 

26/07/2014

Res Scriptae - O Condenado Bem-disposto



A caminho do cadafalso para ser enforcado, numa segunda-feira, o condenado observa: “Bem, é uma boa maneira de começar a semana!”

                          tirado de: Sigmund Freud, “Humour”

18/07/2014

Sine Qua Non (7)


Livra-te de vender a alma ao diabo. A não ser que ta peça muito e te prometa em troca um bocado de pão com marmelada.

07/07/2014

Qui Sumus (4)


Carlos da Gentileza Mendes é, dos cinco, o único fumador. Pode parecer irrelevante que o seja, mas não é. Fumar é uma forma de estar sozinho consigo mesmo, mas estando distraído de si. É uma actividade, portanto, mais ou menos análoga à actividade de imaginar, salvo a subtil mas importantíssima diferença de não se estar atento à solidão. Quem fuma deposita parte do pensamento nas baforadas com que se sacia e nos rodopios que o fumo faz pelo ar; pode até esforçar-se por pensar muito profundamente na pessoa que é, mas todos os pensamentos são regulados pela actividade externa de engolir e expelir fumo durante uns minutos. Quem imagina, por outro lado, tem como única distracção aquilo que encontra dentro da caverna para onde orienta o pensamento; nada há de externo que o desvie do seu abismo interior.