28/10/2014

Prima Facie (5) - Direita e Esquerda


Em França, a Assembleia Nacional Legislativa, instituída pela Constituição de 1791, era formada por três grandes grupos. À direita do presidente, sentavam-se os partidários do rei, monarquistas constitucionais ou conservadores; à esquerda sentavam-se os simpatizantes da revolução, na sua maioria burgueses cultos; ao centro ficavam os moderados, o mais numeroso dos três grupos, composto essencialmente por burgueses liberais e republicanos. A disposição dos assentos em parlamento terá resultado da necessidade que os primeiros sentiram de evitar as indecências que vinham da ala contrária, e originou distinções no espectro político que ainda hoje, apesar de as simpatias não serem naturalmente as mesmas, são usadas por toda a gente.
    

16/10/2014

Ipsis Verbis (11)



IF

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:

07/10/2014

In Hoc Tempore - Banhos Públicos e Marionetas Molhadas


Troveja lá fora. Que acuda Santa Bárbara a quem tiver de acudir. Por mim, ouço bater o granizo nos parapeitos e comovo-me. As bátegas na rua e o rachar de lenha com que os céus se fendem são canções que embalam quem não formou os medos pelas companhias. Fique o caríssimo leitor a saber que há pouca coisa de que goste mais do que de uma tempestade medonha. As pessoas temem os deuses, ou os barulhos que atribuem aos deuses, só porque cresceram a ver pessoas mais velhas a temer deuses e barulhos. Se tivessem crescido sem ervas daninhas à volta, dentro de um poço, por exemplo, ou se tivessem crescido a desaprender o que iam aprendendo, que é como cresce quem sabe crescer, tinham tanto medo de trovões como de uma borboleta que lhes pousasse num dedo.

22/09/2014

Ipsis Verbis (10)


ADONAIS: AN ELEGY ON THE DEATH OF JOHN KEATS

I
       I weep for Adonais—he is dead!
       Oh, weep for Adonais! though our tears
       Thaw not the frost which binds so dear a head!
       And thou, sad Hour, selected from all years
       To mourn our loss, rouse thy obscure compeers,
       And teach them thine own sorrow, say: "With me
       Died Adonais; till the Future dares
       Forget the Past, his fate and fame shall be
An echo and a light unto eternity!"

II
       Where wert thou, mighty Mother, when he lay,
       When thy Son lay, pierc'd by the shaft which flies
       In darkness? where was lorn Urania
       When Adonais died? With veiled eyes,
       'Mid listening Echoes, in her Paradise
       She sate, while one, with soft enamour'd breath,
       Rekindled all the fading melodies,
       With which, like flowers that mock the corse beneath,
He had adorn'd and hid the coming bulk of Death.

III
       Oh, weep for Adonais—he is dead!
       Wake, melancholy Mother, wake and weep!
       Yet wherefore? Quench within their burning bed
       Thy fiery tears, and let thy loud heart keep
       Like his, a mute and uncomplaining sleep;
       For he is gone, where all things wise and fair
       Descend—oh, dream not that the amorous Deep
       Will yet restore him to the vital air;
Death feeds on his mute voice, and laughs at our despair.

12/09/2014

Prima Facie (4) - "Vagabundo"

A palavra “vagabundo”, que em português designa todo aquele que não tem ocupação, ou que tem uma vida errante, tem como origem o adjectivo latino “bacchabundus”, que se refere àquele que sofre o delírio inspirado por Baco, ou seja, àquele que se encontra num estado de embriaguez e de exaltação tal que grita e se agita e se entrega a todos os tipos de devassidão. Da designação de um mero bêbedo, passou então a designar, por metonímia, todos aqueles que, mesmo que não como consequência de beberem em demasia, levam a vida ignominiosa por que define, geralmente, a vida de um bêbedo.

04/09/2014

Ipsis Verbis (9)


Espera-se do filho que cumpra todos os sonhos que os seus pais sonharam, mas que nunca realizaram; espera-se que ele se torne um grande homem e um grande herói na vez do pai, ou que ela consiga um príncipe para marido, como retribuição tardia devida à mãe. A mais precária das aspirações narcisistas – a imortalidade do ego, tão gravemente ameaçada pela simples realidade – é assegurada pela escapatória encontrada no filho. O amor paterno, tão comovente e, no entanto, tão infantil, não é mais do que o narcisismo que ressurge nos pais, o qual, ao transformar-se no objecto desse amor, inegavelmente revela a sua verdadeira natureza.

Sigmund Freud, “On the Introduction of Narcissism”
 

22/08/2014

Ave Atque Vale (4) - Robespierre



“Vi o passado; e prevejo o futuro… A morte é o princípio da Imortalidade!”

(do último discurso público de Robespierre, a 26 de Julho de 1794, dois dias antes de ser executado)

tirado de: Immortal Last Words: History’s Most Memorable Dying Remarks, Deathbed Declarations and Final Farewells

17/08/2014

Res Scriptae - O Encontro


O conde de Southampton foi a uma livraria e perguntou ao livreiro pel’A Anatomia da Melancolia de Robert Burton. O senhor Burton, por acaso, estava naquela altura sentado a um canto da livraria, e o livreiro disse ao conde: ‘Meu amo, se quiser posso mostrar-lhe o autor’. E fê-lo. ‘Senhor Burton’, disse o conde, ‘ao seu dispor’. ‘Senhor de Southampton’, disse o senhor Burton, ‘ao seu dispor’. E foi-se embora.

tirado de: The New Oxford Book of Literary Anedoctes

10/08/2014

In Hoc Tempore - O Trambolhão


Contou-me há dias um primo que não prezo, mas que me escreve todos os anos, tão-só pelo hábito de fazê-lo, a desejar um feliz aniversário e que conte muitos mais – coisas que as pessoas aprendem a dizer pela vizinhança de umas com as outras – que sofrera naquela semana, por uma coisa que lhe acontecera num transporte público, um abalo muito grande. O episódio, a que deu andrajos de desgraça, causou em mim, no entanto, um abalo de tipo bastante diferente. Se lhe respondesse à carta em que mo contou, coisa que não farei por estimar mais os meus papéis do que a tagarelice com os outros, dir-lhe-ia que a história que me relatou não suscitou em mim o terror e a piedade a que o seu espírito foi levado, ao assistir ao que se passou, mas a gargalhada mais despudorada a que pode alguém dar garganta. Como é possível – perguntará o leitor perplexo – que um mesmo acontecimento produza tão dissemelhantes reacções? Como é possível que uma pessoa calce os coturnos a uma história que, segundo a opinião de outra pessoa, só tem pés para calçar socos?