20/03/2015

Res Scriptae - O Eclipse Adiado



Jonathan Swift, Deão da catedral de São Patrício de Dublin desde 1713, deparou-se um dia com uma multidão reunida diante da porta da sua paróquia para assistir a um eclipse. De imediato, Swift chamou o sacristão e disse-lhe o que devia fazer. Este tocou o sino durante algum tempo, para chamar a atenção da multidão, e anunciou que, por desejo do Deão de São Patrício, o eclipse tinha sido adiado para o dia seguinte, à mesma hora. Logo a multidão dispersou, à excepção de uns mais espertos que não queriam perder outra tarde, pois sabiam que o Deão, que era dado aos gracejos, podia decidir adiar o eclipse outra vez no dia seguinte, tomando-os por parvos uma segunda vez.


tirado de “The Works of Reverend Jonathan Swift”,
organizado por Thomas Sheridan

09/03/2015

Ave Atque Vale (6) - Robert Louis Stevenson



“O que é isto? Pareço-te esquisito?”

(últimas palavras de Robert Louis Stevenson, dirigidas subitamente à esposa na varanda de sua casa, momentos antes de perder a consciência devido a uma hemorragia cerebral)

tirado de: Immortal Last Words: History’s Most Memorable Dying Remarks, Deathbed Declarations and Final Farewells

25/02/2015

Os Carlinhos Aleijadinhos



Depois do choque dos atentados terroristas contra as satirazinhas do jornal francês, de cuja condenação poucos se excluíram, o mundo começou, pouco a pouco, a regressar à normalidade. Sem grande espanto, boa parte dos Carlinhos que, a quente, repudiaram sem rodeios o acontecimento, passaram a justificar a infâmia através da insensatez ou das injúrias a que os desenhadores amiúde se entregavam. Mesmo que não tenham desculpado os assassinos, desculparam-lhes certamente a irritação. Na cabeça de quem pensa assim - caríssimo leitor – a acção de espingardar contra os outros é inaceitável, mas o estado de espírito que antecipa e leva a pegar em espingardas é compreensível e justo. A fronteira entre o perdoável e o imperdoável, para a maioria dos homenzinhos e das mulherzinhas que sobre isto tiveram a oportunidade de dizer alguma coisa, está naquilo que distingue o fazer do pensar fazê-lo; o que não admite perdão, portanto, não são os crimes propriamente ditos, mas a incapacidade de açaimar o ódio despertado pelas provocações alheias.

06/02/2015

Ipsis Verbis (14)


Tenho uma religião, a minha religião, e até tenho mais que todos eles com as suas momices e imposturas! Pelo contrário, creio em Deus! Creio no ser supremo, num Criador, seja ele quem for, pouco importa, que nos pôs neste mundo para cumprir os nossos deveres de cidadãos e chefes de família; mas não tenho necessidade de ir a uma igreja beijar salvas de prata e engordar à minha custa uma cambada de farsantes que vivem melhor do que nós! Posso honrar a Deus da mesma maneira num bosque, num campo, ou até contemplando a abóbada etérea, como os antigos. O meu Deus é o mesmo de Sócrates, de Franklin, de Voltaire e de Béranger! Eu sou pela profissão de fé do vigário saboiano e pelos princípios imortais de 89! Por isso não admito que Deus seja assim um sujeito que anda a passear no seu jardim de bengala na mão, instale os seus amigos no ventre das baleias, morra soltando um grito e ressuscite ao cabo de três dias: coisas absurdas por si mesmas e completamente opostas, além disso, a todas as leis da Física; diga-se de passagem que tudo isso prova que os padres estagnaram sempre numa torpe ignorância, onde se esforçam por atolar também as populações.

Gustave Flaubert, Madame Bovary